H#1 – Corpolítico

Desde o final do século XIX as artes cênicas passaram por um profundo processo de transmutação estética e epistemológica, gerando verdadeiras rupturas nos modos de fazer e pensar a sua práxis artística. A revolução ética e estética do teatro novecentista ocidental foi gerada por uma confluência de inúmeros fatores sociais que transcendiam a esfera da arte. Os novos paradigmas que se legitimavam naquelas décadas construíram uma atmosfera de revoluções e utopias, tanto no pensamento como na sociedade. O universo das artes reconstruiu-se assim em constante tensão com a ebulição daqueles tempos, seja contrapondo, reforçando ou mesmo insinuando novos caminhos para a vida.

A ascensão e difusão da ciência, a explícita hibridização das culturas, bem como as novas reivindicações sociais e políticas propulsionaram de modo exponencial as experimentações artísticas daquela época. A redescoberta do corpo e o retorno à natureza foram tendências sociais que, somadas aos novos paradigmas filosóficos, influenciaram de modo determinante as revoluções no campo das artes da cena, uma vez que complexificaram a concepção de sujeito e emprestaram um real protagonismo ao corpo humano. As pesquisas teatrais sobre as ações físicas, assim como as investigações sobre o movimento conduzidas pelos precursores da dança moderna, deslocaram o corpo para o centro de uma complexa teia de relações não apenas artísticas, mas também éticas e políticas. As artes da cena passaram a assumir a presença corpórea do artista como epicentro de suas utopias, reivindicando – de forma explícita ou subliminar – profundas transformações na sociedade e na vida.

Durante todo o século XX as artes cênicas continuaram se reinventando, atualizando ou despindo-se de seus velhos projetos. A dança abdicou de suas utopias “modernas” para mergulhar em um processo contínuo de hibridizações, seja a partir do “desencantamento” de seu pós-modernismo americano, a refundação de sua integridade por meio do teatro-dança alemão, ou mesmo as investigações do “corpo de carne” reivindicadas pela dança Butô japonesa. O teatro avançou de um panfletarismo engajado do agitprop e reinventou suas estratégias políticas e estéticas para desestabilizar a percepção e as certezas de seus espectadores, para tanto, gradativamente implodiu inúmeros elementos que historicamente serviam-lhe como atributo definidor: o texto, o espaço cênico, a luz e o próprio ator.

Em meados do século XX, surge a performance enquanto manifestação artística fundada sobre a irrupção da presença do artista em um espaço público, executando ações essencialmente efêmeras com o intuito de desequilibrar a dinâmica naturalizada do cotidiano. Promíscua e politizada em suas raízes, a performance chega aos dias de hoje como filha herética de seu tempo, refletindo, traduzindo e contrapondo as inquietações e desmobilizações da sociedade contemporânea. Sociedade essa que atingiu um altíssimo grau de desenvolvimento tecnológico, oferecendo assim novos desafios e instrumentos para seus artistas. As novas tecnologias e os novos paradigmas estebelecidos pela virtualidade das relações potencializam igualmente diferentes formas de se fazer e pensar as artes da cena na contemporaneidade; tensionam as certezas sobre os determinimos da matéria, projetando a fisicidade da arte para a virtualidade de suas potências, reelaborando de forma transversal as diferentes manifestações das artes cênicas, ressignificando os conceitos de corporeidade e presença, estimulando-nos a pensar sobre novas estratégias políticas e estéticas de intervenção.

Neste sentido, o simpósio H#1 – CORPOLÍTICO: corpo e política nas artes da presença, proposto pelo grupo de pesquisa (CNPq) “HÍBRIDA – poéticas híbridas da cena contemporânea” do Departamento de Artes Cênicas da UFOP, visa problematizar a partir de um olhar multidisciplinar a dimensão política inerente às artes da cena, potencializada pela presença corpórea – atual ou virtual – do artista. Para tanto serão organizadas 5 mesas de debate composta por docentes da UFOP e convidados externos, entremeadas por espetáculos de teatro e dança, bem como por videoinstalações e intervenções performáticas no espaço urbano da cidade de Ouro Preto.

O simpósio tem como objetivo problematizar a dimensão política inerente às artes da cena, potencializada pela presença corpórea – atual ou virtual – do artista, a partir dos diferentes olhares das Ciências Humanas, ampliando assim a formação de nossos estudantes e artista. As mesas propostas, bem como os espetáculos, performances e instalações, têm o intuito de espacializar a discussão potencializando o debate interdisciplinar dos múltiplos entendimentos acerca da intersecção entre política e artes cênicas.

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2 pensamentos sobre “H#1 – Corpolítico

    • Olá Marilia,
      Obrigado pela atenção e interesse. As inscrições para a oficina serão realizadas através do site do evento. Por favor, controle-o sempre e proceda conforme as instruções.
      Bemvinda!

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